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Como a tecnologia oferece mais autonomia a idosos e deficientes

Recursos de acessibilidade em celulares, eletrodomésticos e aplicativos estão permitindo que idosos e pessoas com deficiência realizem tarefas cotidianas de forma independente.

Publicado em Atualizado · 6 min de leitura
Arte: PautaX · ilustração gerada para esta matéria

Avanços em tecnologia vêm permitindo que pessoas com deficiência e idosos recuperem ou expandam sua autonomia nas atividades do dia a dia. Recursos de acessibilidade presentes em celulares, aplicativos, eletrodomésticos e dispositivos vestíveis facilitam a leitura, o aprendizado, o trabalho, a realização de tarefas domésticas e outras atividades que, em muitos casos, anteriormente demandavam o apoio de terceiros.

Para selecionar a roupa de sua filha, a criadora de conteúdo Mellina Reis, 43 anos, tira fotos das peças e solicita ao aplicativo Be My Eyes a descrição das cores e dos padrões. O mesmo aplicativo a ajuda também na organização de pares de meias. Há 29 anos com perda total da visão decorrente de degeneração retiniana, ela se vale do celular para executar afazeres que outrora dependiam do auxílio alheio.

Um leitor de tela permite a navegação por mensagens, plataformas sociais e apps. Funcionalidades adicionais facilitam a decodificação de embalagens e o gerenciamento de eletrônicos domésticos. "Hoje a tecnologia é minha grande aliada", diz Mellina. Na máquina de lavar, por exemplo, ela aciona pelo dispositivo móvel funções que seriam difíceis de identificar no painel sensível ao toque.

Essa autonomia, contudo, nem sempre vem garantida na compra do produto. Quando adquiriu a máquina de lavar, Mellina identificou que o app não funcionava de forma satisfatória com seu leitor de tela. Entrou em contato com a LG e colaborou nas adequações que tornaram o equipamento acessível para uso independente.

Leitura, aprendizado e rotina pessoal

A magistrada aposentada Maria da Gloria Reis, 76 anos, combina múltiplos equipamentos para manter a leitura e os estudos em dia. Ela apresenta degeneração macular com redução da visão central, mas conserva a visão periférica.

Seu aparelho celular dispõe de tela ampliada quando desdobrado. Aplicações facilitam o acesso a livros, identificam notas de dinheiro, locais e faces. Uma ampliação digital realça textos impressos, enquanto óculos conectados aos recursos da Meta permitem filmar, receber alertas e ouvir conteúdo sonoro.

"Com esses aparelhos consigo ler, estudar, acompanhar programação televisiva e tenho independência nas atividades domésticas e pessoais", relata. Durante sua atuação no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, uma equipe de acessibilidade recomendou também aplicativos que facilitaram a consulta de autos e a confecção de sentenças.

As exigências diferem conforme o indivíduo, inclusive entre aqueles com comprometimento visual. Maria da Gloria aproveita a visão periférica e o amparo de imagens. Mellina depende de narração em áudio e da tradução descritiva de componentes gráficos.

Funcionalidades e programas disponíveis

Para obter dados de rótulos, Mellina utiliza o Seeing AI, ferramenta da Microsoft que transcreve em áudio textos capturados pela câmera do aparelho. O recurso auxilia na compreensão de manuais e demais instruções do fabricante.

Na televisão Samsung, um leitor de tela nativo permite explorar as opções do menu. Contudo, obstáculos surgem em plataformas profissionais, como o Canva, quando ela procura fazer edições em material de apresentação corporativa.

Embora tenha recebido resposta positiva da empresa responsável pela máquina de lavar, a mesma receptividade não se manifesta em todos os setores. Na perspectiva de Mellina, poucos fornecedores reagem quando ela comunica inconsistências de acessibilidade. Ela demanda que criadores de produtos reconheçam que usuários cegos fazem parte de seu público.

A dificuldade pode estar enraizada no projeto do produto, não nas competências da pessoa que o maneja. Tipografia reduzida, insuficiência de contraste, navegação confusa e múltiplas etapas desnecessárias podem bloquear a entrada de usuários.

"Se diversas pessoas se deparam com empecilhos na mesma etapa, provavelmente o entrave está mais no desenvolvimento do produto do que nas limitações delas", comenta Renata Mafra, docente de Psicologia e coordenadora do projeto Arnaldo 50+, sediado no Centro Universitário Arnaldo Janssen, em Belo Horizonte.

Atualizações de software e autenticação complicam a experiência

Entre os usuários que acompanha, Mafra identifica graus variáveis de intimidade com o celular. A substituição do telefone e as revisões de sistema figuram entre os complicadores: uma função que era conhecida muda de localização, e o procedimento exige novo aprendizado.

Códigos de acesso, recuperação de conta e validações biométricas por reconhecimento facial causam dificuldades. A preocupação de prejudicar informações armazenadas ou cair em fraudes eletrônicas pode levar o indivíduo a abandonar a tentativa. "Ocasionalmente, esse temor prejudica mais do que a complexidade tecnológica em si", observa Mafra.

Antonieta Ozzett, médica especializada em Geriatria pelo Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, aponta empecilhos ligados a visão, audição e motricidade. "Teclados de dimensões reduzidas complicam a digitação, em particular para quem sofre tremores", explica. Nas confirmações por imagem, interpretar as orientações e executar os movimentos solicitados pode se tornar desafiador.

Até mesmo recursos de acessibilidade podem necessitar de ajustes particulares. Ampliar caracteres beneficia a compreensão, mas pode prejudicar a visualização do todo. Para quem não consegue processar áudios, oferecer a versão em texto é benéfico. Quando essa opção não existe, fornecer o material por escrito é uma solução, orienta Ozzetti.

Instruir sem substituir a autonomia

Solicitar um veículo, marcar consulta ou realizar transações comerciais pelo telefone reduz a dependência de pessoas próximas. Porém, ter um dispositivo não assegura familiaridade com suas ferramentas. O ensino deve estar alinhado com as particularidades de cada pessoa.

"É bastante diferente alguém pegar o dispositivo, executar tudo em ritmo acelerado e entregar pronto, do que instruir com paciência, permitindo que a própria pessoa percorra novamente os passos", pontua Mafra.

Ozzetti aconselha evitar jargão técnico, verificar compreensão do conteúdo transmitido e, se necessário, redigir um guia de referência. A escassez de disponibilidade e a falta de tolerância de quem orienta, em sua avaliação, constam entre os relatos de dificuldade de pessoas com mais idade.

A orientação igualmente deve proteger credenciais de acesso, informações privadas e preferências individuais. Mafra nota que certas famílias vetam o acesso a apps de movimentação bancária pelo receio de enganação, sem previamente tentar apresentar alternativas seguras. Quando o suporte se transforma em interferência contínua, pode comprometer a independência.

Tecnologia não substitui proteção e cuidados essenciais

Aparelhos com notificação de quedas auxiliam a solicitar ajuda quando a pessoa não está portando o telefone. Ozzetti enfatiza, entretanto, que o dispositivo não mitiga a obrigação de prevenir sinistros no ambiente doméstico, com vigilância à claridade, ao revestimento do chão, aos capachos e aos pontos que precisam de suporte.

Mafra, que não segue usuários recorrentes desses equipamentos, também considera que esses aparelhos não representam certeza de segurança. Sua eficiência está condicionada a carga de bateria, disponibilidade de conectividade e de alguém apto a responder ao chamado. Ozzett reforça ainda que o proprietário pode ignorar de usar o aparelho.

Antes de adquirir um produto, convém reconhecer qual tarefa se almeja resolver, a facilidade de operação e o auxílio oferecido pela marca. "Um instrumento tecnológico amplia a autonomia somente quando está em consonância com as exigências, os anseios e a realidade cotidiana de quem o usará", conclui Mafra.

Com informações de UOL.

Perguntas frequentes

Como o Be My Eyes ajuda Mellina na rotina diária?

O aplicativo Be My Eyes descreve cores e estampas de roupas, além de ajudar a separar pares de meias. Mellina também usa o Seeing AI da Microsoft para ler textos em embalagens capturando com a câmera do celular. Além disso, leitores de tela permitem navegar por mensagens, redes sociais e controlar eletrodomésticos como máquinas de lavar através do aplicativo.

Quais são as maiores dificuldades técnicas enfrentadas por idosos ao usar celulares?

Atualizações de software que mudam a localização dos comandos, senhas complexas, validações por reconhecimento facial e teclados pequenos que dificultam a digitação são os principais obstáculos. O medo de apagar informações ou cair em golpes também limita o uso. Segundo especialistas, a falta de paciência ao ensinar agrava a situação.

Qual é a importância de ensinar corretamente o uso de celulares para idosos?

Ensinar de forma lenta e permitir que a pessoa repita o procedimento sozinha é essencial para desenvolver autonomia. Usar termos simples, não técnicos, e deixar instruções por escrito ajuda. O apoio também deve preservar privacidade e senhas. Quando a ajuda se torna substituição permanente, restringe a autonomia que tecnologia poderia oferecer.

Fontes

Com informações de

  • UOL — Tecnologia ajuda idosos e pessoas com deficiência a recuperar autonomiauol.com.br

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