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Operação de resgate genético: cientistas clonam araucária multissecular tombada

Uma das maiores araucárias do Brasil caiu em floresta experimental de Santa Catarina, mobilizando pesquisadores em missão para salvar seu patrimônio genético através de clonagem.

Publicado em 4 min de leitura
Pesquisador em pé junto ao tronco massivo da araucária gigante que caiu em floresta experimental de Santa Catarina
Foto: Reprodução/G1Ver na fonte

Gigantes pré-históricas

A queda de um dos maiores exemplares de araucária do país acionou uma operação de resgate que envolveu equipes científicas dedicadas. Apelidada de Pinheirão, a conífera media mais de 40 metros de altura e estava instalada em uma floresta de pesquisa administrada conjuntamente pela Embrapa Florestas e pela Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), no município de Caçador.

Acredita-se que a árvore tenha caído em fevereiro de 2026, porém o acontecimento passou despercebido até meados de abril, quando foi avistada durante trabalhos de manutenção em uma via que atravessa a mata. Com o intuito de não permitir que o legado e o perfil genético desse organismo desaparecessem, especialistas da Embrapa se deslocaram até o local em procura de ramos vivos no tronco e nas ramificações.

Durante a expedição, o especialista em propagação vegetativa Ivar Wendling, engenheiro florestal vinculado à Embrapa, deparou-se com uma descoberta notável: ramos que continuavam produzindo brotações quatro meses passados desde o colapso da árvore. Além de coletar as amostras que jaziam no solo, o pesquisador escalou uma araucária adjacente igualmente imponente para retirar brotações que permaneciam preservadas no topo, a mais de 40 metros acima do chão.

O material colhido foi transportado para o laboratório da Embrapa Florestas, localizado na Região Metropolitana de Curitiba. Sob condições controladas de estufa, os pesquisadores já obtiveram aproximadamente 50 clones utilizando o procedimento de enxertia. Esse método envolve uma pequena intervenção botânica: o ramo extraído do Pinheirão é unido a um broto tenro cultivado a partir de sementes. Quando o enxerto se consolida após 100 dias, o resultado é uma réplica que carrega 100% da composição genética da árvore-mãe gigante. O propósito é manter preservado o acervo genético de um organismo dotado de longevidade e dimensões extraordinárias.

Os segredos revelados pelo tronco

Paralelamente ao esforço de propagação vegetativa, uma secção de madeira do tronco do Pinheirão foi extraída e remetida ao laboratório no Estado do Paraná. O material passará por um processo de secagem gradual para evitar fissurações e, em sequência, sofrerá polimento com diferentes granulometrias de lixa para deixar à vista os anéis de desenvolvimento. Através da dendrocronologia — disciplina que examina os vestígios anuais no madeiramento —, os pesquisadores serão capazes de precisar a idade exata da árvore e recompor as transformações climáticas vivenciadas pela região ao longo de muitas gerações.

As avaliações preliminares apontam que a árvore contava com idade entre 400 e 500 anos no instante em que caiu. Em pesquisas anteriores similares, o professor Marcelo Scipioni, do curso de engenharia florestal da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), conseguiu contar 325 anéis em outra araucária colossal que havia caído e ocupava a 24ª colocação na listagem das maiores do país. Conforme essas análises, faixas mais espessas entre os anéis indicam períodos mais quentes e abundantes em precipitação, enquanto faixas mais delgadas assinalam momentos de escassez hídrica.

Para as araucárias centenárias, o encharcamento radical do solo representa a ameaça mais severa. Quando há excesso de umidade, as raízes perdem resistência estrutural e a carga da árvore ocasiona perda de fixação, levando ao tombamento. Com a passagem dos anos, a porção interna do lenho sofre decomposição, originando espaços vazios que podem atingir alturas superiores a 10 metros.

Raridades no Sul e Sudeste

A pesquisa de Scipioni engloba o levantamento das maiores araucárias ainda vivas distribuídas pelo Brasil. Sob perspectiva científica, a condição de gigantismo nessa espécie é determinada por exemplares que ultrapassam 1,50 metro de diâmetro no tronco. No presente, o cadastro das araucárias gigantes remanescentes apresenta poucas dezenas de indivíduos registrados: Santa Catarina abriga 24 árvores; Rio Grande do Sul, 15; Paraná, 8; e Minas Gerais, 2.

O exemplar de maiores proporções do Brasil localiza-se na zona rural de São Joaquim (SC), sendo o único documentado com mais de 3 metros de diâmetro e idade calculada acima de 600 anos. Essa escassez de colossais reflete o processo de destruição em massa vivido pela espécie. Durante o período de exploração madeireira, entre 1900 e 1970, a araucária foi a conífera mais cortada em solo brasileiro. Consequentemente, apenas 3% da cobertura original permanece intacta nos dias atuais, quando historicamente a espécie cobria uma extensão de 200 mil quilômetros quadrados na região Sul (dimensão equivalente a duas vezes a área de Santa Catarina).

Com informações de G1.

Perguntas frequentes

Como os cientistas conseguem clonar a araucária?

Utilizando o método de enxertia, onde um ramo colhido do Pinheirão é unido a um broto jovem cultivado por sementes. Quando o enxerto se consolida após 100 dias, forma-se um clone com 100% do DNA da árvore original.

Como é possível descobrir a idade exata da árvore caída?

Através da dendrocronologia, ciência que analisa os anéis de crescimento no tronco. Um disco de madeira retirado passa por secagem e polimento para evidenciar os anéis, permitindo determinar a idade e reconstruir o histórico climático da região ao longo dos séculos.

Por que as araucárias gigantes são tão raras atualmente?

A espécie sofreu devastação intensa durante o ciclo madeireiro entre 1900 e 1970, quando foi a árvore mais derrubada do país. Hoje restam apenas 3% da cobertura florestal original que, no passado, abrangia 200 mil quilômetros quadrados no Sul do Brasil.

Fontes

Com informações de

  • G1 — Árvore gigante de até 500 anos cai em SC, e cientistas tentam cloná-la para preservar seu DNAg1.globo.com

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